CHUVAS - SÃO UM BENEFÍCIO OU GERADORAS DE TRANSTORNOS?
A maneira como as cidades estão se desenvolvendo deixa uma pergunta em aberto: afinal, as chuvas são um benefício para as cidades e a qualidade de vida ou são um obstáculo do bem estar e geradoras de transtornos?
Cássio Wilborn
2/3/20264 min read


Quando a rua alaga, a culpa é de quem?
As cenas se repetem, seja uma cidade grande, seja ela pequena: chuva intensa, ruas alagadas, carros ilhados, pedestres com água até o joelho. E, quase automaticamente, surge a acusação:
“Isso é culpa do poder público.”
Mas a realidade urbana é mais complexa do que essa resposta simples. Os alagamentos que vivenciamos não são resultado apenas de eventos climáticos extremos. Eles são consequência de comportamentos cotidianos, decisões coletivas e da forma como estruturamos nossas prioridades como sociedade.
Assim, é possível dizer que esse acontecimento está enraizado em 2 grandes problemas:
Problema #1: o sistema de drenagem entope
É fato que muitas cidades possuem sistemas de drenagem antigos, mal dimensionados ou com manutenção insuficiente. No entanto, na prática, um dos principais fatores de falha desses sistemas é muito mais básico: o entupimento por resíduos sólidos.
Bocas de lobo e tubulações não entopem sozinhas. Elas entopem com o acúmulo de "elementos", dos quais podemos citar:
- Embalagens descartadas nas ruas;
- Restos de comida;
- Folhas acumuladas ou limpeza de jardins descartados de forma inadequada;
- Resíduos lançados propositalmente nos dispositivos de drenagem.
Esse último, é mais comum do que se pode imaginar. Pessoas utilizam bocas de lobo como lixeiras, e aqui de fato fica o questionamento: A pessoa que comete esse ato, é desprovida de inteligência ao ponto de não entender que essa ação irá gerar problemas, ou então, ao ponto de ignorar esse fator e não se importar com as consequências?
Esse comportamento, muitas vezes naturalizado, transforma a rede de drenagem em um gargalo. Quando a chuva vem, a água simplesmente não tem por onde escoar.
Não se trata apenas de falta de infraestrutura, muitas vezes as cidades até possuem um sistema bastante completo. Mas trata-se de uso incorreto da infraestrutura existente.
Problema #2: a lógica do poder público
Existe outro fator pouco discutido, mas extremamente relevante: o poder público trabalha, em grande parte, de forma reativa às demandas da população. A partir disso, é preciso deixar claro que infraestrutura de drenagem possui algumas características que não geram incentivo para um investimento. São elas:
- É um sistema subterrâneo;
- Não é "visível";
- Não gera impacto estético imediato;
- Não aparece em "fotos bonitas" para marketing.
Em períodos eleitorais, quando a possibilidade da população realizar solicitações aumenta, as prioridades costumam mudar, migrando para aspectos que são mais "importantes". A população passa a solicitar:
- A pavimentação da sua rua;
- A construção de uma quadra de futebol;
- Melhorias visuais e perceptíveis no curto prazo.
Não quero aqui questionar a importância desses itens elencados, entretanto, quero destacar que a drenagem urbana, essencial para o funcionamento da cidade, acaba ficando em segundo plano, até o próximo alagamento acontecer, é claro.
Ninguém quer ver a sua rua alagada. Mas e se for uma rua que você não utiliza no dia a dia, a sua preocupação ainda é a mesma? É aqui que entra a importância de um gestor público que saiba distinguir solicitações com interesse próprio de solicitações e medidas que irão beneficiar a CIDADE.
O problema não é apenas técnico, é cultural
Cidades não alagam apenas por falhas de engenharia. Elas alagam por uma combinação de escolhas individuais e coletivas.
Quando descartamos lixo de forma inadequada, contribuímos diretamente para o problema. Quando não cobramos políticas públicas estruturantes e preventivas, reforçamos um modelo de gestão baseado apenas na reação ao desastre. E enquanto a população se mantiver com esse pensamento, ela sempre vai gritar com água nas canelas.
Como mudar um cenário assim?
A mudança começa antes da chuva. Ela começa quando a população muda o seu posicionamento e passa a ter uma atitude diferente:
- Procura entender como a cidade funciona, não apenas a sua rua;
- Cobra planejamento aberto, manutenção dos sitemas existentes e criação de estratégias de prevenção;
- Passa a valorizar soluções que não aparecem, entretanto, sustentam a cidade funcionando adequadamente.
Mudar a forma como o poder público atua passa, necessariamente, por mudar o tipo de demanda que a sociedade faz.
Cuidar da cidade não é tarefa exclusiva do serviço público. Esse órgão é apenas uma ferramenta para isso. A cidade é um compromisso coletivo.
Enquanto continuarmos tratando problemas como alagamentos apenas como um acontecimento pontual e não como um sintoma de escolhas mal feitas, eles continuarão acontecendo. E a tendência é que aumentem e se tornem mais frequentes.
Cidades eficientes, que geram qualidade de vida, não acontecem por acaso.
Texto de
Cássio Wilborn
Acredito que é possível construir cidades melhores, lugares onde viver signifique ter qualidade de vida e bem-estar! É possível superar o cenário político que tantas vezes abandona nossas cidades e, sim, é possível progredir. Mas para isso, é preciso compreender que o verdadeiro motor da mudança está muito mais na própria população."


