Cusco-Peru não é apenas um destino turístico: é uma aula sobre cidades e ambientes
Muito além do turismo, Cusco mostra como camadas históricas, cores e arquitetura constroem identidade urbana e impactam a qualidade de vida.
Cássio Wilborn
1/29/20264 min read


Durante a oportunidade de visitar e conhecer Cusco - Peru, procurei extrair o máximo desse momento com o olhar atento de um estudioso sobre Ambientes e Espaços Urbanos. Deixo aqui, um primeiro relato com algumas conclusões:
Cusco: quando a cidade vira um livro aberto sobre ambiente, cultura e identidade
Viajar sempre foi, para mim, mais do que deslocamento geográfico. É deslocamento de percepção. Uma oportunidade de mudar de ambiente para, inevitavelmente, mudar a forma como enxergamos o mundo e, principalmente, como enxergamos as cidades e os espaços que habitamos.
Cusco, no Peru, é um desses lugares que não se visitam apenas com os olhos. Ela exige presença, de fato, com atenção e leitura. Cada rua, cada praça, cada parede conta uma história que não foi apagada pelo tempo, mas sim incorporada a ele.


Uma cidade construída sobre camadas de história
Cusco foi erguida sobre os vestígios das cidades Incas. E talvez o mais interessante seja que essa sobreposição não foi escondida, suavizada ou “corrigida” ao longo dos séculos. Pelo contrário: o contraste entre as construções Incas e a arquitetura colonial é propositalmente evidenciado.
É como se a cidade dissesse o tempo todo: “Isso aqui veio antes. E continua a partir daqui.”
Do ponto de vista urbanístico e cultural, essa escolha é poderosa. A cidade não tenta parecer algo que não é. Ela assume suas camadas, seus conflitos, suas transformações. A história não está em museus isolados, ela faz parte do cotidiano, do caminhar, do viver. A própria cidade conta a sua história, como um livro a céu aberto.
Isso me fez refletir bastante sobre diversas cidades modernas que tentam apagar o passado em nome de uma ideia rasa de progresso, esquecendo que identidade urbana não se constrói com demolições, mas com diálogo entre épocas, entre diferentes tecnologias, estraégias e momentos no tempo.


Beleza não depende de tecnologia, depende de intenção
Algo que me chamou muita atenção em Cusco foi o cuidado estético das construções. Mesmo considerando as limitações técnicas e materiais de outras épocas, existe um esforço evidente para criar beleza.
Ornamentos, detalhes, texturas, composições… tudo revela uma intenção clara de fazer mais do que apenas construir o necessário. Existe ali uma preocupação em qualificar a experiência de quem vive e de quem passa.
Isso levanta uma pergunta que pode ser um pouco incômoda, porém necessária:
COMO, com tantos recursos disponíveis atualmente, ainda produzimos cidades e edifícios tão pobres do ponto de vista sensorial e humano?
Talvez o problema nunca tenha sido a falta de recursos, mas a falta de atenção, de tempo e de prioridade ao ambiente como algo que influencia diretamente a vida das pessoas.
Cores como expressão de cultura e estado de espírito
Cusco é colorida. E não de forma aleatória.
As cores estão nas fachadas, nas flores, nos tecidos, nos detalhes urbanos. Elas comunicam alegria, pertencimento, identidade. Aqui, o minimalismo não tem vez... e isso não é um erro, é uma escolha cultural.
Cada cor parece dizer algo sobre aquele povo: sobre celebração, sobre vida comunitária, sobre presença.
A cidade é viva porque visualmente ela se assume viva.
E novamente, isso me fez pensar sobre como muitas vezes tentamos impor uma estética “universal” às cidades, ignorando que o ambiente deve ser um reflexo direto das pessoas que o habitam, e não de tendências importadas sem contexto.


Ambiente não é cenário, é protagonista
Cusco, como qualquer cidade real, tem problemas. Muitos: Infraestrutura, mobilidade, desigualdades. Eles existem como em todo lugar. Mas não foi para catalogar defeitos que estive lá.
O que me interessou foi observar, absorver e aprender. Adquirir embasamento para aplicar como profissional da área.
Nossa vida acontece em ambientes. Eles moldam comportamentos, emoções, relações e até expectativas de futuro. Quando entendemos isso, passamos a olhar casas, ruas, praças, bairros e cidades com mais responsabilidade.
Cusco me relembrou que cidades não precisam ser perfeitas para serem significativas. Elas precisam ser verdadeiras, coerentes com sua história e alinhadas com a forma como as pessoas vivem.
Levo dessa experiência não apenas referências estéticas ou urbanísticas, mas uma reafirmação de algo que já acredito há muito tempo:
Ambientes bem pensados não servem para impressionar, eles servem para sustentar qualidade de vida!




Texto de
Cássio Wilborn


