POR QUE É TÃO DIFÍCIL CONSTRUIR CIDADES MELHORES SE TODOS QUEREM ESPAÇOS DE QUALIDADE PARA VIVER?

Cidades não deixam de evoluir apenas por falta de dinheiro, como é predominantemente divulgado. Elas deixam de evoluir por falhas estruturais, ausência da visão de longo prazo e, principalmente, pela descontinuidade das decisões a cada troca de administração, colocando a cidade como algo secundário e priorizando uma ideologia política.

Cássio Wilborn

4/12/20266 min read

Existe um senso comum de que tornar uma cidade em um lugar bom para se viver é necessariamente caro. Sim, de fato é necessário investimento, muito pelo estado em que deixamos nossas cidades chegarem.

Com base nisso, temos a crença de que o Brasil não possui recursos suficientes para investir em cidade. É aqui que reside o grande problema que enfrentamos para transformar cidades em lugares melhores.

Discursos de que não há recursos é uma explicação confortável, enquanto a realidade é muito mais incômoda. E por isso, é constantemente negada. As próprias pessoas fecham os olhos para isso.

Um conflito visível, que fingimos ser invisível

Toda cidade vive em um conflito estrutural silencioso: a interpretação sobre o TEMPO:

De um lado, temos o tempo do cenário político, com ciclos de 4 anos, subdividido com cenário político a cada 2 anos.

Do outro lado, temos o tempo da cidade, com processos que levam décadas para maturar, se consolidar e gerar impacto real na qualidade de vida das pessoas.

Em teoria, o lado político não deveria ser um problema para o lado da cidade, mas sim, servir como um novo empurrão a cada eleição.

Quero fazer uma comparação aqui com algo que acredito facilitar a compreensão. Imagine um jogo de futebol; Ao longo da partida, é normal que os jogadores fiquem cansados e possam ser substituídos por outros, para manter a intensidade do jogo. Pois bem, mesmo com a substituição de alguns jogadores, o time continua atacando para o mesmo lado, tentando fazer gol na mesma goleira e seguindo as instruções passadas pelo treinador.

Agora, vamos trazer isso para o cenário das cidades. Cada eleição deveria atuar como uma substituição, para entregar ao time (cidade) uma energia renovada para manter a intensidade do seu desenvolvimento, atacando para o mesmo lado.

Porém, a cada eleição, é possível observar que, mesmo entrando um jogar do mesmo time, o objetivo muda. A goleira a ser alcançada já não é mais a mesma, assim como o sistema tático também não é mais o mesmo. 

Mesmo com o jogo em andamento, o time agora precisa se adaptar a uma nova meta e a um novo sistema de jogo.

Agora, saindo desse cenário simulado e voltando para a realidade, o grande problema estrutural que as cidades enfrentam é a falta de um sistema tático que os "jogadores" respeitem. Em contraponto, existe o plano de governo, que é imposto a cada ciclo, ignorando as premissas da cidade e priorizando o egocentrismo de uma biografia política a ser criada.

O custo da descontinuidade

Pouco se fala sobre isso, mas a falta de consistência é um dos maiores custos que as cidades enfrentam. 

- Planos que são elaborados pensando em velocidade visual, não em qualidade;
- Projetos já elaborados sendo descartados;
- Falta de prioridade para obras de longo prazo.

Esse tipo de ação, normal em mais de 90% das cidades brasileiras, gera um efeito em cascata:

- Desperdício de trabalho e recurso;
- Retrabalho constante;
- Perda de eficiência administrativa;
- Desorganização do crescimento urbano.

E o mais impressionante é o fato de isso se tornar algo "normal". É comum observar diferentes administrações públicas querendo enfrentar e resolver o mesmo assunto diversas vezes... Porque toda vez é um recomeço, sempre do zero, sempre desconsiderando o que já foi trabalhado.

O erro: tratar a cidade como um projeto de governo

Existe uma diferença monumental que não é discutida: Uma "coisa" é o ato de administrar uma cidade; outra "coisa", completamente diferente, é construir um projeto de cidade.

Quando a cidade é tratada como uma extensão de governo, ela passa a refletir interesses imediatos, decisões políticas e estratégias de curto prazo. É claro que medidas e ações imediatas são importantes, inclusive, extremamente necessárias. 

Mas cidades que funcionam bem, de verdade, não são resultado de governos isolados, mas sim de visões que atravessam e superam ciclos administrativos.

O Urbanista Jan Gehl resume isso de uma maneira bem simples:

"Primeiro moldamos as cidades. Depois, elas nos moldam."

Se continuarmos moldando as cidades sem uma consistência, o resultado será sempre uma sociedade que vive em um ambiente fragmentado.

Planejamento além da área técnica
Uma perspectiva cultural.

O debate sobre planejamento de uma cidade vai além da área técnica, de zoneamentos, infraestrutura, mobilidade...

É preciso uma organização cultural!

Aproveito para citar aqui a Urbanista Jane Jacobs, que já alertava sobre isso:

"Cidades têm a capacidade de fornecer algo para todos, mas somente quando criada por todos".

Ou seja, se a cidade é construída para que seus habitantes possam usufruir dela, por que então não há participação da população nesse processo?

E aqui é extremamente importante observarmos como deve ser feito essa participação, afinal, será que a população sabe o que realmente quer? E será que a grande maioria da população quer aquilo que realmente é melhor para ela? ou quer aquilo que é mais cômodo?

É muito claro que se ouvesse liberdade para que a população escolhesse o que ela quisesse para a cidade, viveríamos em um cenário caótico. Tenho certeza de que não preciso citar o porque disso.

Exatamente por isso que é preciso criar dois mecanismos de participação no crescimento da cidade:

Um deles é para identificar as necessidades reais da população, pois isso muda de cidade para cidade, sendo algo totalmente particular. É importante aqui considerar a diversidade de necessidades e não prioizar apenas aquilo que surgir como maioria.

O segundo ponto é oferecer a opção de escolha de forma controlada. o que isso significa? Que após passar pelo primeiro filtro, identificando as necessidades e anseios, é preciso criar, preferencialmente, mais que uma possibilidade para atuar. A partir disso, abre-se a possibilidade de consulta pública, deixando que os habitantes da cidade possam expressar sua opinião sobre o que preferem, entretanto, dentro de um cenário controlado, onde indiferente da escolha, o resultado será positivo para cada cidadão.

O que cidades bem-sucedidas fazem de diferente?

Quando observamos cidades que conseguiram evoluir de forma mais consistente, um padrão se repete.

Gosto de citar Copenhague, Barcelona e Curitiba, para não dizer que dentro do Brasil não há bons exemplos. Essas cidades não se transformaram da noite para o dia. Elas foram construídas em cima de uma base de:

- Pensamento de longo prazo;
- Continuidade;
- Decisões estratégicas consistentes;
- Proximidade da população.

Essas cidades conseguiram entender que se a cada eleição elas mudarem de direção, elas nunca vão chegar em um destino.

O impacto na sua vida

Esse assunto que trago aqui não é um problema abstrato. É algo que se manifesta no seu dia a dia. Afinal, sem continuidade você enfrenta problemas como:

- Piora no trânsito;
- Espaços públicos de baixa qualidade ou inexistentes;
- Bairros que crescem sem infraestrutura;
- Serviços urbanos ineficientes.

Aos poucos a qualidade de vida vai piorando, você vai se acostumando com isso, achando normal, se adaptando...

A mudança de mentalidade

Se realmente temos o desejo de viver em um ambiente de qualidade, em cidades agradáveis, precisamos mudar a forma como pensamos sobre cidade.

A cidade não pode ser tratada como um projeto político. Ela precisa ser tratada como um projeto coletivo de longo prazo.

Como fazer isso?

Uma sugestão é a substituição dos planos de governo por um Plano de Desenvolvimento de Cidade.

Isso significa que, independente do tipo de administração política que uma cidade venha a ter, as ações devem atender a esse Plano. 

Indiferente se a administração pública tem uma visão de direita ou de esquerda, o objetivo da população é o mesmo. É viver bem!

O primeiro passo para isso é criar um Plano de Desenvolvimento de Cidade que seja fixo, que atravesse gestões e seja, principalmente, respeitado! E ninguém melhor que a própria população para cobrar por isso. 

Os planos de governo passarão então a apontar quais metas pré estabelecidas no Plano de Desenvolvimento da Cidade que irão executar, apresentando inclusive o mais importante: O "como" ... Como será executado financeira e estrategicamente, de forma sólida e realista. Qualquer plano de govenro que não explique minimamente "como será executado" pode ser considerado apenas uma promessa.

No fim, cada um pode ter a opinião que preferir, seja conservador, seja liberal, seja até mesmo sem opinião definida. A vontade de viver bem é unânime.

Texto de
Cássio Wilborn

Acredito que é possível construir cidades melhores, lugares onde viver signifique ter qualidade de vida e bem-estar!

É possível superar o cenário político que tantas vezes abandona nossas cidades e, sim, é possível progredir. Mas para isso, é preciso compreender que o verdadeiro motor da mudança está muito mais na própria população.